The Stonewall Celebration Concert – 26 anos de um clássico

Primeiro álbum solo de Renato Russo foi uma homenagem à Rebelião Stonewall em Nova Iorque, marco na luta LGBTQAI+


Capa do primeiro álbum solo de Renato Russo (1994)

O amor é o intocável dos prazeres e alguns amores ainda merecem uma faixa do ouro”, é assim que Renato Russo nos presenteava, no começo dos anos 1990, com sua marcante e sofisticada interpretação para standarts da música americana, novidades descobertas por ele e canções resgatadas do cinema que fizeram parte da educação musical do vocalista da Legião Urbana. O trecho citado acima é da música “Love Is”, da dupla canadense Kate & Anna McGarrigle e o folk era apenas um dos gêneros musicais que Renato trazia e recriava no clássico “The Stonewall Celebration Concert”, seu primeiro álbum solo que completa 26 anos em 2020.

O trabalho foi lançado em 1994, no ano em que marcava os 25 anos da Rebelião de Stonewall, que foi uma série de manifestações violentas acontecidas nos EUA em 1969. Na ocasião, houve diversos conflitos da polícia com grupos da comunidade LGBT+ que agiram em repúdio ao abuso e a violência policial na cidade de Nova Iorque, mais precisamente no Bar Stonewall Inn, localizado em Manhattan.

O local, que era ponto de encontro de gays, lésbicas e travestis, foi invadido constantemente pela polícia americana e, cada vez mais, bares gays dos EUA estavam sofrendo inspeções rotineiras resultando na prisão de travestis e drag queens por serem "provocantes" e também eram presos todos os que vestiam mais de três peças do sexo oposto, além de outros absurdos, violência e abuso policial. Foi a partir disso que a comunidade LGBT+ reagiu.

O Stonewall Inn no final dos anos 1960

Tais protestos em busca de liberdade e igualdade são considerados o evento mais importante que levou ao movimento de libertação de gênero e orientação sexual e à luta pelos direitos gays não só nos EUA como no mundo inteiro. Foi daí, por exemplo, que surgiram as paradas do ORGULHO LGBT+, que são celebradas em vários países e em várias datas ao decorrer do ano.

Gravado entre fevereiro e março de 1994, com a sofisticadíssima produção de Carlos Trilha (que também trabalharia com Renato no “Equilíbro Distante”), o álbum é todo cantado em inglês com versões que vão de Bob Dylan e Nick Drake até Madonna e Quincy Jones.

Estão nesse trabalho hits como “Cathedral Song", música de Tanita Tikaram, que foi um fenômeno dos anos 90; "Miss Celie's Blues", da trilha sonora do filme de Spielberg “A Cor Púrpura”, assinada por Quincy Jones. Há também a versão de Renato para o tema do clássico "Pinocchio"(1940), da Disney, “When You Wish Upon a Star”, assinado por Ned Washington e Leigh Harline.



Outros destaques do álbum são versões para “Cherish”, sucesso de Madonna em uma versão folk com forte impressão vocal e “If You See Her, Say Hello”, original do álbum Blood on the Tracks (1975), de Bob Dylan. Para esta última faixa, a curiosidade é que Renato mudou o título para “If You See Him, Say Hello” (“Se você O ver, diga olá”, em tradução livre), mudando o pronome “ela” para “ele”.


A Rebelião de Stonewall (1969), em Nova Iorque, empoderou o ativismo LGBTQ+ para sempre

Mais de 25 anos após o lançamento do álbum e de mais de 50 anos da Rebelião de Stonewall, o nosso eterno ídolo rebelde não estaria muito feliz de viver em tempos com cada vez mais intolerância, falta de respeito e de amor, pois ainda há muito o que se fazer, conscientizar, lutar e agir. De acordo com dados de um relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), entre janeiro e maio de 2019, o Brasil registrou 141 mortes de pessoas LGBT+, sendo 126 homicídios e 15 suicídios, o que representa a média de uma morte a cada 23 horas. São vidas, sonhos e brilhos que foram apagados pelo simples fato de lutar para ser quem é e de amar quem quiser amar.

Renato em ensaio para o "The Stonewall Celebration"

Em celebração ao mês do orgulho LGBTQAI+, ouvir o “The Stonewall Celebration Concert” é uma experiência única, que mostra que a arte transforma e que a música se torna necessária sempre para enfrentarmos as adversidades da vida com muita resistência, respeito e luta por amor e igualdade. Todo o conceito do disco não foi à toa, pois neste trabalho Renato nos deu reflexões sobre as lutas dos direitos LGBTQ+ e informações sobre o combate à discriminação e à violência contra os gays.

O ícone do rock brasileiro doou parte dos royalties do álbum para a campanha contra fome e miséria, do sociólogo Betinho, e ao final do encarte do disco, o ídolo trouxe informações sobre entidades sociais de proteção às crianças e mulheres, à natureza e aos homossexuais e portadores do HIV. Que Renato Russo e o “The Stonewall Celebration Concert” continuem nos inspirando hoje e sempre. E a você, amig@, um conselho: ame e deixe amar 🌈😍

OutrosPots.png

Matérias Recentes