"Pacarrete": um conto de resistência da arte

“Morri e me esqueci de me avisar, por isso eu grito” é apenas uma das frases que jogam para o espectador reflexões sobre a vida, sociedade, arte, política, loucura e humanização. Foi assim que “Pacarrete”, primeiro longa-metragem do diretor cearense Allan Deberton, foi recebido pelo público durante o Circuito Penedo de Cinema de 2019: entre as gargalhadas na apresentação da bailarina cearense e as lágrimas no desenrolar da história. Um filme para tocar e mudar as pessoas.


Assista ao trailer de Pacarrete:


Rodado no interior do Ceará, mais precisamente em Russas, cidade natal do diretor, o filme é inspirado na vida de Maria Araújo Lima, professora de balé e figura folclórica da cidade, tida como louca pelo fato de divulgar e valorizar a arte da dança de origem europeia no local.


“Pacarrete significa margarida em francês”. Assim somos apresentados a uma figura “cartunesca” que, mesmo vivendo com a irmã debilitada Chiquinha (Zezita Matos) e tendo a companhia da ajudadora Maria (Soia Lira), vive em um conflito de solidão e rejeição por parte dos conterrâneos. O arfar de esperança fica por conta do amor platônico de Pacarrete pelo comerciante Miguel (João Miguel), o único que de alguma forma dá asas ao sonho da Anna Pavlova russana. 


O trabalho com roteiro e direção nos mostra mais uma vez que o cinema se torna mais belo quando escolhe contar uma história em seu mais puro sentido. Simples e direto, “Pacarrete” tem uma narrativa linda, poética e com teor político que chega a nos dar a impressão de ler em tela um conto muito bem escrito da literatura brasileira. No fim das contas, não é apenas sobre insistir na apresentação de um espetáculo de balé numa festa de forró no interior do Ceará, é sobre lutar por suas próprias verdades, pela sua identidade e ser resistência até o fim, mesmo que as esperanças pareçam morrer a cada dia.


Marcélia Cartaxo em cena do filme "Pacarrete" | Foto: divulgação

Não há como não pôr em destaque o trabalho impecável com as atrizes e os atores. Mesmo com a vasta experiência e uma carreira premiada, Marcélia Cartaxo (Urso de Prata em 1985 por "A Hora da Estrela"), no debate após a exibição do filme em Penedo, contou que interpretar a bailarina foi um dos maiores desafios de seu currículo. Seja mergulhando pela primeira vez no universo do balé ou acordando às quatro da manhã todos os dias durante um mês de gravações para dar vida à bailarina mártir de Russas, a atriz viveu a experiência intensamente. 


Ao mesmo tempo em que a Pacarrete de Marcélia nos tira boas gargalhadas por seu jeito histérico de lidar com as situações e as pessoas, nos vemos em lágrimas quando a observamos entrar em um espetáculo de balé sombrio em que a dança é contra o peso da vida. Um exemplo é o da cena da lavagem da calçada na virada da personagem: pesadíssima. Ali, vemos a reação da protagonista diante de uma perda que a joga ainda mais em uma bolha como se a limpeza do ambiente em que vive a resguardasse da falta de apoio da sociedade.


Foto: divulgação

A sensação de vazio e a reflexão provocados pela cena final (de uma beleza teatral, com cenografia, iluminação ímpares) nos jogam num turbilhão de sentimentos ao nos fazer lembrar de que, em vida, a Pacarrete real nunca foi reconhecida como a artista e defensora da arte que era. Artista é quem faz e defende a arte e, mesmo que loucos ou tachados de loucos, devemos dar a eles o palco que lhes é merecido. 


Foi com o poder de contar histórias, em especial uma história de infância de mais um promissor cineasta nordestino, que o cinema brasileiro nos agraciou de novo com uma obra rica e necessária. Grande vencedor do 47º Festival de Gramado com oito Kikitos de ouro, “Pacarrete” é um verdadeiro conto de resistência da arte em meio ao caos. 

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