MAYSA REIS: “a arte é o veículo, a consciência que pode chegar nas pessoas trazendo novos olhares"

Diretora e roteirista alagoana é a segunda convidada da série “ARTE RESISTE” e bateu um papo com o Mixtape 90 sobre arte, cinema feito por mulheres e o investimento público no setor cultural


Maysa Reis como assistente de direção - Foto: Amanda Moa

“Ver um filme no Cinema sempre foi algo atrelado a um momento de alegria, uma comemoração” é dessa forma com que Maysa Reis, diretora e roteirista alagoana, relembra sua relação com a sétima arte.

Com cupons fiscais trocados por ingressos de filmes, essa era a única forma com que Maysa e suas irmãs assistiam aos clássicos na infância e adolescência junto com os pais. O programa de trocas por ingressos era do trabalho do pai de Maysa em um posto de combustível e as idas ao Cinema eram motivo de festa para a família. Anos mais tarde, eles não imaginariam que a filha mais velha se tornaria uma realizadora do audiovisual alagoano com um filme que já percorreu mais de 15 festivais pelo Brasil e também pelo mundo, além de ganhar dois prêmios.

Com o curta-metragem “Menina” (2013), Maysa Reis em parceria com Amanda Duarte, trouxe uma obra que discute a invisibilidade social e que reflete sobre a vida da mulher negra na sociedade em seus desejos, sonhos, sexualidade e o sentimento de solidão. Trabalho idealizado e produzido ainda na universidade, a obra mudou para sempre a carreira da cineasta, que além de escrever, produzir, dirigir filmes, ainda finaliza uma dissertação de mestrado sobre as mulheres no cinema alagoano.

Atualmente trabalhando como assistente de direção em alguns projetos, Maysa almeja se especializar nessa área que liga a produção e o criativo, além de concluir sua pesquisa. Neste cenário de quarentena em que todos os setores precisam se adaptar, a realizadora bateu um papo com o Mixtape 90 sobre arte, processo criativo, cinema feito por mulheres e o investimento público para o setor cultural.


MIXTAPE: Maysa, conhecemos teu trabalho com o curta “Menina” (2013). A partir dele começamos a pesquisar mais sobre o audiovisual alagoano. Conta um pouco sobre o cinema na tua vida.

MAYSA: O cinema entrou na minha vida como a maioria das pessoas, por meio do afeto. Eu sempre gostei do cinema, mas não era cinéfila. Antigamente eu nem ia com muita frequência ao cinema, para ser sincera. Meu pai trabalhava em um posto de gasolina e eu pedia para ele juntar notas fiscais, que na época podiam ser trocadas por ingressos de filmes. Daí minha memória afetiva com o cinema é sempre de momentos de festa e de comemoração, sempre foi algo atrelado a um momento de alegria.

Porém, o cinema surgiu de verdade em minha vida na universidade com o convite do Professor Almir Guilhermino, em 2012, para participar de um projeto de extensão com outros alunos em grupos de produção de roteiro na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), inclusive foi até lá onde surgiu o “Menina”. Com o “Menina” foi onde tudo começou. Foi o meu primeiro filme como diretora, em parceria com Amanda Duarte.

Cartaz do curta "Menina" (2013)

MIXTAPE: Ainda sobre “Menina”, como surgiu a ideia de contar uma história tão forte sobre a invisibilidade social e, infelizmente, ainda muito comum por aí?

MAYSA: O argumento e toda a ideia são da minha parceira e realizadora, Amanda Duarte. Tudo surgiu de uma pesquisa antropológica realizada no Rio de Janeiro em que um professor/antropólogo se vestiu de gari na frente da Universidade em que dava aula e não foi reconhecido pelos próprios alunos.

A Amanda trouxe essa história para a gente e queria que o filme fosse protagonizado por uma mulher faxineira (Ticiane Simões). O filme era bem mais pesado na época e quando levei algumas ideias para a Amanda, surgiu o roteiro a quatro mãos e daí eu e Amanda também dirigimos o curta juntas.

Na época o filme foi idealizado com o mote da invisibilidade social, porém a obra percorreu e ainda percorre por vários festivais de cinema e até hoje temos discussões diversas que passam por vários vieses: invisibilidade da mulher negra, sexualidade da mulher negra, questões de como a mulher negra lida com o desejo e a solidão etc. É um filme que eu amei fazer, tenho muito orgulho, adorei a parceria com a Amanda: eu era a efervescência e Amanda a calmaria, uma equilibrou a outra.

Se eu fizesse o “Menina” hoje eu mudaria muita coisa, faria ele mais forte e mais potente, porém não me arrependo. É uma obra que mudou muito nossas vidas e eu quis participar intensamente de cada detalhe.


MIXTAPE: De uns anos para cá observamos que o audiovisual alagoano tem tido um momento promissor com investimento público (através dos editais) e também com muitos artistas e realizadores trabalhando pesado nas produções. Como você enxerga esse momento?

MAYSA: Falando como realizadora, a gente vê um momento de oportunidade e de colher frutos de uma luta que vem desde 2009. O nosso setor vem cobrando das entidades governamentais (estaduais e municipais) posições sobre editais de cultura e de audiovisual, estamos sempre envolvidos politicamente para fazer valer a Lei de Incentivo à Cultura.

Na minha pesquisa de mestrado sobre mulheres no cinema de Alagoas, analiso a Mostra Sururu de Cinema desde sua criação até o ano de 2018 e estudei bastante sobre os editais para o audiovisual na história do cinema em nosso Estado. Posso dizer que os editais são importantíssimos porque a partir deles, por exemplo, podemos pagar a equipe de nossas produções e profissionalizar as pessoas do setor cultural em Alagoas. Tendo a indústria do audiovisual estabelecida, podemos ter mais dedicação e incentivo aos projetos para que nossos realizadores e trabalhadores do setor cultural não precisem ter que trabalhar com outra coisa. Além de mostrar a força da arte do cinema alagoano, podemos profissionalizar nosso setor.

Porém, começamos a acessar os editais recentemente e ainda estamos tentando ter acesso aos valores da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Apesar da luta, das incertezas quanto ao governo atual e do processo burocrático, temos boas expectativas do investimento público para fazer nossas ótimas produções e fazer o nosso setor girar.


MIXTAPE: Como está sendo o processo de criação nesse período de quarentena?

MAYSA: No começo da quarentena eu estava envolvida em cinco filmes (em dois como assistente de direção e três como produtora) quando tudo teve que ser interrompido. Eu estava estagnada em criação e agora estou concentrada na minha dissertação do mestrado. Porém, de um tempo pra cá tenho trabalhado em uma produção para um edital de emergência e resolvi fazer um filme sobre minha mãe, que esteve doente. Trata-se de produção em casa mesmo. Isso me deu uma chama de criatividade, deu vontade de fazer mais e agora estou num momento massa de criação.


Maysa escreve dissertação de mestrado sobre mulheres no cinema alagoano

MIXTAPE: Você é uma das realizadoras mulheres do audiovisual alagoano. Existem mais mulheres do cinema alagoano que você se inspira ou que ache que todo mundo devia conhecer?

MAYSA: Em minha pesquisa de mestrado, estudo e escrevo sobre o cinema feito por mulheres em Alagoas e hoje escolho três delas em especial.

A primeira é a Alice Jardim que é uma realizadora audiovisual, fotógrafa e também arquiteta e ela traz muito da arquitetura e do urbanismo em seus filmes, inclusive há muitas obras de Alice disponível online. Laís é muito atuante e me inspirou bastante no começo da minha carreira, principalmente quando ela chegava na Mostra Sururu com três ou quatro filmes, ela é muito inspiradora.

A segunda é a Larissa Lisboa, realizadora audiovisual e idealizadora do site Alagoar, porque acho que o engajamento dela com a arte é uma bandeira, uma escolha de vida, algo bem bonito de se ver. Gosto da Larissa porque ela faz um cinema muito intuitivo, muito afetivo, muito do que ela quer dizer e gravar sem se prender às estruturas mercadológicas do fazer cinema.

Já a Laís Araújo é outra realizadora genial, maravilhosa. Eu sou muito fã e a considero pioneira, pois ela já fez coisas que nenhuma outra mulher já fez por aqui, inclusive Laís já está com o primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher em Alagoas no forno. Muitos curtas dela já viajaram para muitos festivais pelo Brasil e pelo mundo com Laís sempre levantando a bandeira do nosso Estado. Essas três mulheres maravilhosas são inspirações para mim e todo mundo devia conhecer o trabalho de cada uma delas, porém há muito mais mulheres incríveis por aí também.


MIXTAPE: Há algum filme que já te salvou alguma vez na vida? Daqueles que você sempre recorre quando está na bad?

MAYSA: Os filmes sempre me salvam muito, na verdade. Eu faço parte de um clube do filme, o Mirante Cineclube. Apesar de ver muita coisa que eu não gosto nem concordo, o ambiente cinéfilo, assistir e discutir filmes, estar ali sempre me salva. Porém, sabe o que me traz conforto? Os filmes de animação ("Frozen", "Moana", "Sing" etc.)


Amo os curtas da Pixar, “Bao" é um filme muito bonito. O "Frozen", por exemplo, me emociona várias vezes por mostrar que o amor verdadeiro é o amor de irmã e eu tenho duas irmãs. Então quanto eu estou mal, sempre recorro às animações para esvaziar a mente, pois são elas que me fazem esquecer dos problemas.


O cinema tem um papel transformador - tanto das pessoas que fazem quanto das que assistem. Eu acho que é uma arte que nos leva a pensar, a questionar certos pontos de vista e atitudes

MIXTAPE: A galera do “Alagoar” faz um trabalho incrível para a memória e difusão do audiovisual alagoano e você já esteve por lá algumas vezes. O que você acha dessa iniciativa?

MAYSA: O Alagoar é uma plataforma incrível que Alagoas tem a sorte de ter, já que outros estados não têm. Eu acho que o sucesso do Alagoar é resultado de pura dedicação e amor da galera que faz. Foi um trabalho idealizado pela Larissa Lisboa, mas é feito a muitas mãos: já participei de muitas coisas por lá, tem muito também da Amanda, minha parceira no “Menina” e da galera do Mirante Cineclube. Todo mundo contribuindo para a difusão do nosso audiovisual.

É uma janela importantíssima onde você tem acesso ao mundo do audiovisual alagoano com filmes online, informações, roteiros e entrevistas com realizadores para quem se interessar e também para o público em geral. É um trabalho lindo feito por pessoas que acreditam no nosso cinema para pessoas que valorizam o nosso cinema.


MIXTAPE: Você vê o cinema como papel transformador?

MAYSA: O “Menina” veio da ideia de questionar a invisibilidade de pessoas que a gente passa todos os dias, porém não enxergamos que há ali sonhos, planos, sentimentos, além de muitas outras reflexões que a obra traz.

O cinema tem um papel transformador - tanto das pessoas que fazem quanto das que assistem. Eu acho que é uma arte que nos leva a pensar, a questionar certos pontos de vista e atitudes. O cinema é uma grande janela para o mundo, é o abrir os olhos para ver outras coisas, inclusive é uma ferramenta de representação e de identidade, sabe?

Por exemplo, quanto mais mulheres dirigindo, mais mulheres protagonistas, mais mulheres atuando sem precisar estarem ligadas a personagens amorosos e sim de construir e planejar a vida, é essa pluralidade de perfis que faz com que as mulheres criem laços, se identifiquem e mudem conceitos. Fora o cinema feito por mulheres, também temos o cinema negro, o cinema LGBTQAI+ etc. O cinema, como toda a arte, tem um papel transformador e isso é muito potente.


MIXTAPE: Ao final de cada entrevista, a gente pede ao convidado que deixe uma mixtape para nosso público indicando obras que fazem ou fizeram parte da tua vida. Manda a tua :)


MAYSA: Já vou avisar que vou misturar tudo! Haha. Em música, o que me marca é o reggae por influência do meu pai, amo todos os clássicos de Bob Marley, do Peter Tosh. O Reggae é um som que me ajuda a concentrar, a escrever, ficar bem. Já no cinema, amo tudo relacionado ao cinema que fala e é feito no Nordeste, comecei pelo clássico “Lisbela e o Prisioneiro”, mas amo o cinema do Nordeste feito por mulheres e também sou apaixonada pelos hits pop dos anos 2000, bem adolescente MTV com direito a fazer DVD e tudo haha

Bob Marley – todos os clássicos

Lisbela e o Prisioneiro

Amor, Plástico e Barulho (Renata Pinheiro) - (primeiro filme pernambucano dirigido por uma mulher)

Conto da Aia – Margaret Atwood

Playlist Pop Anos 2000 (Britney, *NSYNC, Backstreet Boys, Beyoncé, Rihanna...)


Maysa Reis é uma diretora e roteirista que acredita no poder transformador da ARTE.



Fotos de Making off e de divulgação de "Menina": Itawi Albuquerque

Twitter:@reismaysaa Instagram: @reismaysa Obras: "Menina" (2013)






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