MAJU SHANII: " a arte precisa resistir e existir, pois é isso que dá sentido à vida das pessoas"

Cantora, compositora, drag queen e artista alagoana é a quarta convidada da série “ARTE RESISTE” e nos presenteou com uma entrevista massa sobre música, arte drag, carreira e a importância de valorizar a cultura local


Maju Shanii em "Água na Boca" - Foto: Woulthamberg Rodrigues

"Se tu é esperto vem, se me enrolar esquece. Se tu tiver atitude, sabe o que acontece". Foi justamente do poder da atitude e de uma necessidade artística que ela chegou à lá Naomi de "Salto 15", esquentou todo mundo em "Pegar Fogo", uniu forças monumentais vibes Lady Gaga & Beyoncé para mandar um "T.Q.R" e deixou a galera de "Água na Boca" para brotar no coração de geral em "Não Para".

O universo de uma das primeiras drag queens de Alagoas a se lançar no mundo da música só chegou até nós em 2015, mas a arte de Maju Shanii vem de muitos anos atrás. Teatro desde os 14 anos nos tempos de colégio, formação na Escola Técnica de Artes da Universidade Federal de Alagoas (ETA-UFAL) e balé clássico por sete anos, a arte é hoje uma das coisas mais importantes na vida da cantora, compositora, bailarina e drag queen de Maceió (AL).

"Cabelo pronto e a cara maquiada / Drag, diva, linda, eu nasci empoderada / Maju Shanii, me respeita na quebrada", com um debut desses a gente já sabe do poder que está por vir, mas Shanii vai muito além quando o assunto é fazer arte independente no Nordeste. "As oportunidades são muito pequenas quando se compara a artistas do Sul e do Sudeste, então constantemente a gente vive resistindo e fazendo arte a esses fatos e acontecimentos que basicamente querem nos boicotar". Sempre presente em todas as etapas dos projetos lançados - desde composição, audiovisual, figurino, shows -, Shanii é o espírito da artista independente que mete a cara e defende com unhas e dentes não só a própria arte como a arte da região em que vive, enaltecendo e militando pelos artistas conterrâneos.

Não é para qualquer uma ter como inspiração cantoras que vão de Beyoncé e Tinashe a Gloria Groove, além de ter como referências muitos artistas negros ligados ao Urban, sem falar é claro da presença icônica da supermodelo Naomi Campbell e do glamour de Shea Couleé. Com planos para lançar seu primeiro EP de faixas inéditas, um projeto de covers de MPB no forno e alguns singles em breve, Maju Shanii bateu um papo com o Mixtape 90 em que falou sobre arte e carreira, indicou e enalteceu artistas nordestinos, mostrou a importância de valorizar a arte local e ainda abriu sua caixinha de referências pop.


MIXTAPE: Conhecemos teu trabalho com o hit "Não Para", lançada em agosto e que ficou no TOP viral 50 de Maceió no Spotify. Mas a carreira já vem de alguns anos, né? Conta um pouco como surgiu a música e a arte na tua vida.


SHANII: A arte surgiu na minha vida desde os meus 14 anos quando eu fazia teatro na escola e aos 16 eu comecei a me profissionalizar. Eu entrei no curso de formação de ator e atriz da Escola Técnica de Artes (ETA) da Universidade Federal de Alagoas, no qual me formei e hoje sou ator profissional. Também fiz balé clássico durante sete anos e a arte sempre esteve muito presente na vida, tenho hoje 25 anos então já conta mais de 10 anos de arte.

MIXTAPE: E a arte drag em que época surgiu?

SHANII: A arte drag surgiu no momento em que eu estava terminando o curso de teatro por uma necessidade artística, vontade de continuar fazendo arte e me expressar. Foi quando conheci o seriado RuPaul's Drag Race e me identifiquei bastante com o que as artistas faziam por lá porque era muito semelhante ao que eu já fazia nas aulas de teatro. Daí, em dezembro de 2015 eu comecei a fazer drag, mas a música surgiu uns dois anos depois com o boom das cantoras drags no Brasil. Foi nesse período que eu conheci o Carlos Lins (DJ e produtor de Maceió) que me convidou para participar de um trabalho dele, trocamos figurinhas, daí lançamos minha primeira música "Salto 15" e não parei mais. Lá se vão 3 anos na música e 5 anos como Drag.

Maju Shanii é uma das primeiras drag queens de Alagoas a se lançar na música - Foto: Woulthamberg Rodrigues

MIXTAPE: De "Salto 15" (2017) até "Não Para" (2020), como você enxerga a tua carreira e o mercado musical para a arte e o ativismo da arte drag no Nordeste?

SHANII: A minha carreira eu enxergo como um grande amadurecimento porque se eu comparo as músicas e os trabalhos audiovisuais de hoje com o meu primeiro trabalho em "Salto 15" eu vejo um amadurecimento e uma grande diferença como artista mesmo. Desde as composições (embora eu não assine a composição de todas as minhas músicas, só de algumas), eu sinto que as faixas e as produções musicais ficaram mais trabalhadas, a estética está mais segmentada e bem mais definida.

Com o passar do tempo, acabei experimentando algumas coisas e comecei a perceber o que é rolava e o que é que dava certo para a minha drag. Hoje eu acho que estou num local muito legal, minha carreira mudou muito de "Salto 15" para "Não Para". O mercado musical para as drags aqui no Nordeste vem crescendo bastante, tanto que grandes nomes da música são daqui: Kaya Conky e Potiguara Bardo, dois grandes nomes de artistas drags de Natal (RN) já conseguem alcançar grandes lugares no Brasil.

Paralelo a isso, não tem como se falar de arte drag sem falar de militância, né? Drag é um corpo político, é um ser político, você necessariamente não precisa levantar bandeira para estar militando e acho que o Nordeste vem sendo essencial para o crescimento da arte drag no país.


MIXTAPE: "A preta incomoda, eu meto a cara e quebro tudo" é um trecho do hit "Salto 15", que tem um pegada mega empoderada. Você acha que hoje em dia música e política precisam andar ainda mais juntas?

SHANII: “Salto 15” é uma composição de Rian Guimarães, um colega meu e amigo do Carlos Lins que mora no Rio de Janeiro. Na época eu tava muito em contato com militância e um autoconhecimento de minha negritude quando conversei com Rian e passei o que queria para a música, daí surgiu essa letra maravilhosa. Eu acho que a música, política e militância não precisam necessariamente andar juntas, não acho que seja uma obrigatoriedade. Tanto que depois de “Salto 15”, as minhas músicas não têm tanto teor político nas letras, eu acho que tudo depende da proposta e daquilo que o artista quer passar. A música é aliada nesse processo para tudo que a gente quer passar através das letras e da produção, mas não necessariamente precisa ser militância.

Porém, se esse for o segmento do artista e se há identificação nesse tipo de trabalho, principalmente se o artista levanta uma bandeira através da música eu acho que sim é válido. E não só na música como nas produções audiovisuais que estão aí para nos trazer questões: por exemplo, em meus videoclipes tento trazer muito da representatividade de pessoas negras e da comunidade LGBTQAI+ porque acho que seja muito mais fácil as pessoas se sentirem representadas vendo algo do que apenas ouvindo a minha música, isso é uma percepção minha e pode ser que outros artistas encaram e interpretam de outra maneira.



MIXTAPE: Sobre o audiovisual, no clipe de "Não Para" (todo gravado no iPhone e em casa durante a pandemia) você assina roteiro e direção junto com Augusto Christoff. É algo que você se envolve e pensa em fazer mais?

SHANII: Como eu venho do teatro, esse processo de produção, roteirizar e dirigir é algo muito presente em mim. Quando comecei a trabalhar como drag eu comecei a deixar e me envolver mais com outros artistas para que essas pessoas pudessem também mostrar o trabalho delas através do meu porque eu acho isso muito importante, o artista se unir a outros para criar algo coletivamente. Eu dirigi junto com o Augusto o videoclipe de “Não Para” e por ser algo criado nesse processo de pandemia não podia até ter mais gente, mas “Água na Boca” eu também dirigi junto com o Carlos Lins e “TQR” tem a direção do Augusto e o roteiro é meu.

Eu estou sempre a par de todas as coisas que estão relacionadas às minhas produções musicais e audiovisuais, mesmo quando não estou compondo ou nos beats eu sempre dou pitaco, pois é algo que eu vou representar, cantar no palco e tem que ser algo que bata o “feeling” comigo. A mesma coisa com as roupas, o Augusto é meu stylist e me ajuda muito em várias situações, mas só visto quando mando referências. Estou sempre envolvida em todos os meus projetos, pois além da necessidade de estar presente eu sou artista independente e não tenho sempre quem faça por mim, eu tenho que fazer.


Bastidores do clipe T.Q.R, parceria de Shanii com Danny Bond - Fotos: Rodrigo Born


MIXTAPE: Você tem algumas parcerias com a também maravilhosa Danny Bond. Para a música e a cultura LGBTQAI+, o quanto você acha importante essa união de artistas?

SHANII: Eu acho que fazer parcerias é uma das maiores e melhores coisas que a música pop pode nos dar de visibilidade, principalmente para nós artistas LGBTQAI+ que não temos geralmente o apoio das grandes massas, então precisamos se unir às outras pessoas que talvez tenham mais visibilidade ou não, discurso parecido ou para fazer uma mistura do que às vezes não combina e fazer combinar.


Essas uniões são importantes não só para que a gente possa se projetar para outros públicos, outros estados, mas principalmente pra gente bater na tecla que precisamos nos unir e acho que a música faz isso: une pessoas, estados, sentimentos. Sou super a favor das parcerias e eu entendo o poder das parcerias dentro da nossa comunidade, tanto é que os maiores hinos da música pop mundial vêm de featurings: Britney Spears & Madonna, Beyoncé & Shakira, Lady Gaga & Beyoncé, vários momentos icônicos que no Brasil também temos: Gloria Groove & IZA, Pabllo Vittar, Aretuza & Gloria Groove, agora tivemos Gloria Groove & Manu Gavassi. São músicas que vão acontecendo de parcerias e a gente fica “pô, que legal que aconteceu”.


MIXTAPE: Ainda sobre parcerias... Você já trabalhou com o Carlos Lins. Conta um pouco das tuas parcerias e se existe alguém com quem você sonhe em trabalhar.

SHANII: O Carlos é um grande parceiro de trabalho e grande amigo, sendo o produtor com quem mais trabalhei (das minhas cinco faixas lançadas, ele produziu duas). Eu acho que a minha vida enquanto artista até hoje é definida por parcerias, tanto com produtores quanto com artistas (“TQR” com Danny Bond, “Pega Fogo” com Callazans) e é algo que eu tenho muito orgulho. Fazer parceria não é fácil, pois é preciso encontrar um meio termo de tudo para que os dois gêneros se encontrem numa faixa só e entregar ao público de uma maneira que as pessoas os dois artistas naquela obras. Eu tenho vários sonhos para trabalhar e que acho que seria muito legal trabalhar a nível de Nordeste: Potyguara Bardo (RN) e a Enme, uma grande artista do Maranhão, preta maravilhosa que tem um trabalho incrível, faria super parceria com Kaya Conky também.



MIXTAPE: Quais são as suas maiores referências na música e na cultura pop?

SHANII: Minhas maiores referências são os artistas negros por sempre ter sido ligado ao segmento de artista urbano, é algo que me inspiro muito, o pop urbano. Não só na música com os elementos urbanos como também nos elementos do hip hop e do trap que é algo que define muito o meu som. Eu tenho três grandes artistas internacionais que definem muito o trabalho que eu gosto de fazer: Tinashe, Ciara e Beyoncé, três artistas negras que eu me identifico muito - tanto na performance quanto no estilo musical. Já artista brasileira eu acho que minha maior inspiração, que sou muito fã e amo de paixão é a Glória Groove, que já abri um show para ela em Maceió (AL) e considero uma das maiores realizações de minha carreira.

Já na cultura pop em geral, uma das minhas maiores influências e referências é a Shea Couleé, uma drag de RuPaul, inclusive comecei a fazer a drag muito inspirado nela por ser uma drag que exala beleza e glamour sempre ligada em questões negras trazendo muito pro urbano. Já outra mulher que me inspiro muito é a Naomi Campbell porque acho que é uma modelo negra incrível que exala glamour e tento trazer muito dela em minhas montações. Além, é claro, de toda a cultura pop drag nacional com Márcia Pantera, Trio Milano, todos os ícones da cena da arte drag brasileira que nos inspiram porque por causa delas a gente faz esse trabalho hoje, são pessoas que me inspiram, que infelizmente não tive oportunidade de assisti-las ainda, mas espero conseguir um dia.

Foto: Woulthamberg Rodrigues

MIXTAPE: Sobre a situação da arte no Brasil... Você acha que a arte resiste?

SHANII: Eu acho que a arte resiste aos trancos e barranco, mas resiste sim. Principalmente a arte independente de artistas LGBTQAI+ e negros porque vemos que ainda somos muito marginalizados e, dependendo do espaço em que você esteja inserido, isso se intensifica ainda mais. Eu acho que é isso: a arte precisa resistir e existir, pois afinal de contas é a arte que dá sentido à vida de algumas pessoas e dos artistas, né? Se a gente não fizer arte, a nossa vida não tem sentido. Definitivamente, a arte é resistência.


MIXTAPE: Quais os próximos passos da carreira? Conta um pouco pra gente.

SHANII: Então, eu tinha planejado lançar neste ano o meu primeiro EP de faixas inéditas e que por causa da pandemia, acabei parando um pouco o processo de produção. Provavelmente, vai ser algo que vou lançar no segundo semestre do ano que vem, se tudo der certo. Neste ano, eu ainda tenho algumas músicas para lançar e por incrível que pareça, apesar de 2020 ser o ano da pandemia, eu estou produzindo muito. Já lancei “Não Para”, também tenho um projeto de covers de MPB e ainda dois “feat.” para sair a qualquer hora se tudo certo.


MIXTAPE: Apontada como uma das principais cantoras drag em Maceió (AL), você costuma pensar muito nisso? Tem algo que ainda falta para Maju fazer que ainda não fez?

SHANII: Menino (hahaha) eu não costumo ficar pensar nessas coisas não, porque pra mim é um título e um rolê que eu tenho muito orgulho de saber e tenho noção porque afinal de contas eu fui a primeira da cidade de Maceió (AL) a lançar música, a viver de produzir e é um rolê que me faz sentir orgulho da minha trajetória, de tudo que eu consegui diante de todas as dificuldades que passei e me sinto muito feliz.

Não fico pensando muito nisso não, mas às vezes paro para pensar quando alguém me pergunta como você fez agora (rsrs) ou quando outra pessoa me para e fala, daí cai a ficha e eu fico “ah, que coisa legal mesmo”. Já o que falta para Maju Shanii fazer é finalmente lançar o meu primeiro EP, que estou querendo lançar desde quando comecei a fazer música. Eu sinto muito essa necessidade de lançar um trabalho coeso, com várias músicas para que as pessoas escutem e sintam a minha alma ali dentro, chego a dizer que o meu primeiro EP será o trabalho da minha vida porque é um rolê que estou adiando tanto e que estou querendo tanto lançar, vamos ver como vai ser.


Maju Shanii já abriu show da Gloria Groove em Maceió - Foto: Woulthamberg Rodrigues

MIXTAPE: Shanii, ao final de cada entrevista a gente pede que o convidado deixe uma Mixtape com alguma dica para nosso público. Qual a tua?

SHANII: Eu vou deixar aqui indicação do que eu sempre levanto a bandeira: para que as pessoas escutem, conheçam e consumam os artistas locais. Em Maceió, por exemplo, temos muitos artistas dentro e fora do segmento pop. Claro que a arte maceioense não se resume a só isso, mas vou deixar aqui alguns.

Quero indicar artistas como: Vick Mackenzie, Lore B, Boby Ch, Tequila Bomb, Unidade Nova Praia, Llari. São artistas maceionses e alagoanos que todo mundo precisa conhecer e saber que existe música e trabalho de qualidade na nossa terra. Procurem e conheçam artistas alagoanos, vão atrás, fucem, consumam essa arte que nós precisamos de vocês.

Maju Shanii é uma cantora, compositora, bailarina e drag queen que acredita no poder transformador da ARTE.


Twitter: @majushanii
Instagram: @majushanii
Youtube: Maju Shanii












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