Jup do Bairro, CORPO SEM JUÍZO & o álbum de 2020


"Não somos definidos pela natureza assim que nascemos, mas pela cultura que criamos e somos criados [...] Não nascemos nada, talvez nem humanos nascemos." É da universalidade das letras, da potente produção e da beleza do transtorno artístico de Jup do Bairro que somos catapultados ao universo do grande sarau contemporâneo que é o EP “CORPO SEM JUÍZO”, lançado em junho deste ano.

Quem dá nome a esse trabalho é tão arteira (como ela mesmo se define) que precisaríamos de outro texto só para falar de cada uma das habilidades da musa. Aqui vão algumas: cantora, atriz, apresentadora, stylist, performer, multiartista... Essa é força transformadora que vem lá de Valo Velho, último distrito do Capão Redondo (divisa de Itapecerica da Serra com São Paulo). Trata-se de um novo movimento cultural chamado JUP DO BAIRRO.

Jup do Bairro no Prêmio Multishow 2020 - Foto: Karla Brights

Autodidata, inquieta e com uma mente brilhante, Jup teve em 2020 a oportunidade de fazer e refazer, criar e recriar, nascer e renascer mais ainda do que ela já era, de unir forças para trazer o melhor de si. Em seu discurso com narrativas que transcorrem os conceitos de seu corpo, de travesti, preta, gorda e periférica, a dona daquele que considero o álbum brasileiro do ano traz consigo o vigor do que é arte e do que a arte pode fazer com a vida das pessoas.

Com direção musical da produtora paulistana BADSISTA e participações de Linn da Quebrada (grande amiga e parceira de Jup nas turnês de Pajubá, Trava Línguas e no programa “TransMissão”, do Canal Brasil), Rico Dalasam, Deize Tigrona e o rapper Mulambo, “CORPO SEM JUÍZO” tem uma unidade que atravessa todas as tribos musicais. Trata-se de um álbum que pode conquistar tanto o público que já segue a carreira da arteira de Valo Velho quanto novos corações e mentes em que as letras desse trabalho têm poder universal, afinal ela já mostrou que “Jup do Bairro é Corote, mas também é Chandon.”


Tal feito universal pode ser sentido na faixa “TRANGRESSÃO” com Jup se transformando, saindo do casulo da vida e fechando ciclos como pode ser visto no trecho “E voo longe sem fazer parada, faço de flores e amores minhas curtas moradas.” É o grito para que possamos todos voar e deixa voar, a faixa também ganhou um clipe monumental dirigido por Rodrigo de Carvalho para a parte visual do trabalho.


Com “PELO AMOR DE DEIZE”, temos Jup & Deize Tigrona levantando a bandeira da luta contra as doenças mentais numa produção pesada, porém necessária que traz um áudio no final que nos toma de um misto de soco no estômago e esperança. Ninguém está sozinha ou sozinho no mundo. Peça ajuda!



Foi da junção com Rico Dalasam e Linn da Quebrada que Jup do Bairro nos deu um novo hino de celebração ao amor, ao sexo e aos corpos na faixa “ALL YOU NEED IS LOVE”.


Como diria o poeta, o que não nos mata, nos deixa mais fortes e em “O CORRE”, Jup solta um “dó-ré-mi-só lamento” para “uns porcos que já tentaram seu fim”.


O ponto alto do EP fica por conta de “LUTA POR MIM”. Aqui somos arrebatados em uma faixa-soco que traz um rap que transcende com a interpretação potente de Mulambo. Trata-se de um manifesto para que a luta antirracista saia das redes sociais e ganhe ações práticas no país em que as mortes de pessoas negras por violência cresceu quase 60% em 8 anos. “Dizia Vidas Negras Importam, pra você isso foi diferencial /É que é toda vez a mesma merda / 'Cês matam eu de carne pa' fazer eu de pedra / Movidos pelo tesão por tragédia”. Até quando?


Fechando o manifesto, a faixa-título explora as potências dos nossos corpos, é uma música sobre liberdade, sobre ter um corpo sem juízo.


Por esses e outros motivos, que pode se dizer que a “Revelação do Ano” no Prêmio Multishow de Música Brasileira 2020 pode muito bem ser também a dona do “Melhor Álbum do Ano”. Faça um favor a você mesmo e vá ouvir/ver/sentir/transcender com CORPO SEM JUÍZO sem moderação.

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