Entrevista: Ruimaraes fala sobre o novo EP - Alavantu

Novo trabalho do alagoano mescla músicas tradicionais nordestinas com batidas eletrônicas


Ruimaraes em ensaio para o "Alavantu" | Foto: Ruimaraes

"Eu gosto da Joana, eu gosto do José, eu gosto da Maria e qual o problema é?". É com essa letra em "Xote da Implicância" e também outras faixas que o multiartista alagoano Ruimaraes moderniza o passado no EP “Alavantu”. Com cinco músicas de muito xote, baião e forró raiz misturado a batidas eletrônicas, a obra chegou às plataformas digitais no último dia 31.

Por influência musical da mãe, que ouvia de Dominguinhos a Zeca Baleiro passando pelos também alagoanos Eliezer Setton e Junior Almeida, Ruimaraes partiu para uma experiência de entrega aos ritmos, a histórias de grandes ícones e ao poder da arte nordestina em busca da própria origem e do que se tornou como ser humano e artista para a produção do “Alavantu”.

Foi nessa busca pela evolução musical que ele ainda pede licença em “Monólogo ao Pé de Coco” para fazer uma homenagem a ídolos da arte nordestina que vão de Gonzagão e Jackson do Pandeiro a Jacinto Silva e Sivuca, na faixa que abre o trabalho. Ao longo do “Alavantu”, podemos ver que as músicas se tornam um deleite aos ouvidos dos mais jovens com temas atuais e também conquistam os fãs mais velhos com os ritmos para dançar arrochadinho e relembrar histórias.

Para alguns, ele é rapper. Para outros é músico e youtuber. Como o próprio Ruimaraes fala em “Xote da Implicância”, a receita é ele quem faz, o feijão é ele quem tempera, mas o que não gosta é de ver o mundo ser isolado, então para quê se encaixar em apenas uma bolha, não é? Foi em uma conversa massa pelo Whatsapp com o Mixtape 90 que Ruimaraes esbanjou carisma em um papo sobre arte nordestina, "Avalantu" e seus causos de vida com a música. Prepara o café e a tapioca com queijo coalho e chega pra cá :)


MIXTAPE: Rui, para começar conta um pouco de como surgiu a arte na tua vida.

RUIMARAES: Quando criança eu era viciado em música e sempre fui muito curioso. Não sabia tocar nada, mas ouvia os meus CD's loucamente e juntava todas as economias que tinha para comprar outros CD's. Sempre gostei de me expressar, cantar, dançar, atuar e fazia questão de participar de todos os eventos relacionados a essas temáticas na época de escola. À medida que fui crescendo, fui me apaixonando também pelo cinema. Queria ter uma versão romântica onde um pai me ensinou a tocar violão criança ou um avô que me mostrou seus LPs e ai eu me interessei, mas na verdade ela veio por conta própria mesmo, curiosidade e admiração por outros artistas.

Capa do "Alavantu", novo EP de Ruimaraes

MIXTAPE: Como foi o processo de criação do "Alavantu"?

RUIMARAES: Desde que comecei a produzir minhas músicas em carreira solo, eu tinha em mente que iria explorar diversos ritmos e não queria me prender a um só gênero. Lá pelo final de 2017 e começo de 2018, quando comecei a estudar produção musical, eu fui inventando várias coisas. Fiz um rap, um samba misturado com rap e um forró misturado com rap. Enquanto ia lançando outras coisas, o forró ficou meio de lado, mas sempre gostei muito dele.

Achei que ainda dava pra explorar muito disso. Daí, quando me veio a iniciativa de fazer um novo EP, eu pensei logo nessa música e decidi. Preciso trabalhar mais essa mistura do forró com o rap que eu gostei muito. No fim, essa música em específico continua guardada e criei todas as que estão no "Alavantu" do zero.

Na construção da identidade do EP eu mergulhei de cabeça em ritmos nordestinos. Fiquei pelo menos um mês só estudando, ouvindo e conhecendo artistas clássicos da cultura nordestina. Fortaleci meus laços que os que já conhecia e gostava como também pude conhecer outros artistas incríveis que nunca tinha ouvido falar antes. A partir daí, eu meio que fundi o meu jeito de fazer música com o deles, juntei os meus temas que gosto de abordar em letras com os deles.


MIXTAPE: Qual a importância da arte nordestina na tua vida?

RUIMARAES: Agora sim vem a parte romântica hahaha. Minha escola musical toda foi minha mãe. Ela adorava ouvir, quando eu era criança, Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Alceu Valença, Lenine, Zeca baleiro e por aí vai. Eu fui apresentado a vários grandes nomes inclusive artistas alagoanos como Macleim, Junior Almeida, Eliezer Setton. Tudo isso foi influência da minha mãe. oi ela a responsável por me apresentar artistas e despertar em mim o interesse em nomes locais também, que me ensinou a valorizar o que é feito na minha terra e não só o que tem grande público. Ouvir nomes como Lenine e Zeca, que são artistas que não se prendem a um gênero e estão sempre inventando coisas novas, me fez despertar também esse interesse de transitar entre os gêneros musicais.

O interesse pela arte nordestina veio por influência da mãe do artista | Foto: Ruimaraes


MIXTAPE: Muita gente fala do Ruimaraes como rapper, mas além do rap você faz um monte de outra coisa, né? Conta um pouco pra gente :)

RUIMARAES: Inclusive eu fico meio assim kkkkk. Não sei exatamente se sou rapper, mas como existe essa exigência de se encaixar em alguma bolha, vai de rapper. O meu jeito de cantar é puxado pro rap, mas os ritmos nem sempre. Essa é a minha impaciência, não consigo ficar fazendo apenas uma coisa. Quero abraçar o mundo hahaha. De profissão eu sou fotógrafo e filmmaker. De hobby aí vem músico e o famigerado “youtuber” haha. A verdade que sempre gostei de me expressar, gravar, compor, criar. Seja vídeo, seja música, seja foto, o que for.


MIXTAPE: Na faixa "De Longe", que tem a participação da Ju Souza, você define como Xote Lo-Fi e achei massa demais. Como surgiu isso?

RUIMARAES: Querendo ou não, moda. A moda das músicas Lo-Fi está em alta e eu particularmente adoro. Geralmente são músicas/beats muito gostosos de ouvir, músicas que acalmam, mas por ser moda não se transforma em algo ruim. Na composição dessa música, eu tentei usar elementos que se assemelham com músicas Lo-Fi. Primeiro que o xote de todos os subgêneros do forró é o mais gostosinho de ouvir (assim como as músicas Lo-Fi) e a partir daí foi só fazer a ligação dos gêneros.


MIXTAPE: Com a pandemia, a classe artística foi uma das que mais sofreu e vem sofrendo um baque. O que você pensa em relação a isso?

RUIMARAES: Infelizmente é uma realidade. Eu não vivo de música e apesar de fazer música há anos, isso nunca foi possível. Para sobreviver de música em Alagoas, por exemplo, você tem que ser cover e isso é literalmente sobreviver. A questão da renda é complicada. Eu também sou autônomo e, querendo ou não, também estou sendo afetado pela pandemia, com esse presidente aí é que as coisas se tornam mais difíceis. Independentemente de tudo, sou e serei sempre a favor de ficar em casa, usar máscara e evitar aglomerações até que tudo passe. Só nos resta esperar e torcer pelo melhor.


MIXTAPE: Para fechar de uma forma massa, qual a mixtape do momento que não sai dos ouvidos do Rui?

RUIMARAES: Eu escuto de tudo um pouco, então bora lá:


1. Jacinto Silva - Só Era Eu

2. Pense - Todo Momento É o Agora

3. Anderson .Paak - Make It Better

4. Braza - Cartas de Tarô

5. Silva - No seu Lençol

Ouça aqui o "Alavantu":


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