Entrevista: o mar em versos pelo escritor alagoano Jean Albuquerque


Foto: Roger Silva

É de referências nas canções de Dorival Caymmi, nos versos do peso de mundo de Drummond e na obra de Spike Lee que Jean Albuquerque, escritor, poeta e jornalista alagoano, reúne inspiração para o terceiro livro "A Ressaca do Mar Trincou Meus Ossos", publicado pelo selo Loitxa Lab e lançado em maio deste ano.

Com alma de poeta em toda vulnerabilidade que a arte exige, Jean faz jus ao azul-cinza-silêncio dos mares e, como bom maceioense, busca nas águas momentos para se enxergar com humanidade em um mundo cada vez mais pesado. Temas como solidão, amor, medo, raiva e esperança também estão presentes na obra, afinal "uma dobra nas águas também é uma luz no fim do mundo", como traz o poema "Eu Não Te Disse Nada".

"Acredito na escrita como processo. Do primeiro livro até aqui venho conversando com diversos autores, obras fílmicas, canções. Uns eu vou deixando durante o tempo, outros eu organizo a mesa da cozinha e coloco a melhor xícara para um café." É com rica bagagem cultural, olhar apurado de mundo e força criativa que o poeta nos entrega mais uma de suas obras, confirmando que aos poucos e com muita luta na arte independente já fincou seu nome na literatura alagoana. Em um papo massa sobre escrita, poesia, música e política, Jean conversou com o Mixtape 90 e ainda abriu a caixa de discos para indicar os álbuns preferidos. Bora lá?


MIXTAPE: "A Ressaca do Mar Trincou Meus Ossos" é o seu terceiro livro. O que mudou na escrita do Jean da primeira obra publicada para a nova?

JEAN: Para este livro, fui fazer umas pesquisas, como por exemplo, quem escreveu melhor sobre o mar e como foi construído este texto. Durante as pesquisas o que mais me chamou a atenção foram as canções de Dorival Caymmi e os versos que foram ecoando e dialogando com as minhas memórias do mar. É difícil afirmar o que mudou, a gente joga o livro no mundo e os leitores vão atribuindo sentidos, mas acredito que a mudança na escrita vem muito da seriedade e o cuidado ao construir imagens poéticas, a aceitação das fragilidades também faz parte dessa mudança, ao mesmo tempo que procurei preencher as lacunas dos livros anteriores e tentar sair um pouco da minha zona de conforto. Estou no momento que me sinto mais maduro, com as experiências de ter lançado antes, já estou no terceiro livro e todos foram lançados de forma independente, a gente vai apanhando, vendo a melhor forma até entregar ao leitor um livro honesto, aquilo que com muito trabalho eu produzir, entreguei ao mundo.

Capa do terceiro livro de Jean Albuquerque | Foto: divulgação

MIXTAPE: O livro foi premiado na Lei Aldir Blanc. Apesar da desvalorização cultural que esse des(governo) propaga, como você enxerga o momento das políticas públicas para a arte no Brasil?

JEAN: A Lei Aldir Blanc é um marco, sobretudo, de toda a classe artística do país que por meio do apoio de diversos parlamentares conseguiu fazer com que ela chegasse a maioria dos agentes culturais país afora. A Aldir mobilizou muita gente, foram várias reuniões, criação de minutas e muito diálogo. Espero que a Lei permaneça, que fique esse legado — estamos muito distantes do ideal, as políticas de fomento ainda são muito incipientes e não conseguem dar conta de uma produção cultural efervescente e diversa em nosso estado. Temos que lutar para manter o que já temos e a possibilidade de ter mais editais culturais para os artistas de Alagoas. A luta nacional é pela implementação da Lei Paulo Gustavo (PL 73/2021) publicada no Diário Oficial do Senado Federal que prevê recursos para o orçamento dos setores culturais que deve ser levada para votação no Senado até o fim do mês. Todas as conquistas sempre vieram com muita luta, nunca foi fácil. A gente já sabe qual a posição do genocida em relação à cultura. É luta, vacina e impeachment.


MIXTAPE: "Ressaca" foi lançado pela Loitxa Lab, que eu considero não só um selo independente como um movimento artístico e de expressão massa que tá surgindo em Alagoas. Mas afinal, o que é Loitxa Lab?

JEAN: Com os livros e não só, estamos propondo um novo modo de fazer arte em Alagoas. Na aba ideia do nosso site fizemos um manifesto e propomos apontamentos acerca do que é a Loitxa que reproduzo aqui: “É também gambiarra. Partimos da palavra, não só da palavra, direto pra construção de um olhar que apesar do canto se desdobra em cantos, em muitas vozes não mais outras, mas vozes. Apesar de estar nos cantos, geográfica e socialmente falando, faz, de dentro dele, suas próprias mandingas que o jogam para o seu próprio centro. Fazemos do canto um lugar de floresta, onde tudo tem seu valor; onde o verde na verdade é um conjunto de muitos outros verdes”.

Eu, Janderson Felipe, Lucas Litrento e Richard Plácido nos juntamos para botar a palavra Loitxa no mundo, cuidjar com as nossas produções, ir testando novos modos do fazer artístico, com a necessidade de [re]criar os nossos espaços da memória, a palavra que nossos pais/avós utilizavam. Transformar tudo o que é escombros na nossa história, a necessidade de criar espaços da memória — mesmo eles sendo legados de dor e sofrimento.

MIXTAPE: Ao ler "A Ressaca", pude notar todas as dores e verdades do poeta que me lembraram Drummond, além de um poema para Spike Lee. Quais são suas maiores referências?

JEAN: Para este livro, eu mergulhei nos versos de Drummond, Borges, nos cânticos de Caymmi, nas canções de Martinho da Vila e tem um pouco da atmosfera da banda paulistana E a terra nunca me pareceu distante. As trocas, memórias, vivências, leituras, audições, tudo vira influência. Não dá para elencar as maiores influências, eu posso falar daqueles autores que chamo para bater um papo quando estou produzindo alguma obra. No momento, eu estou mergulhado nas canções de Caymmi, tenho colecionado seus discos.


Na bagagem cultural de Jean Albuquerque, Caymmi e Drummond têm lugar garantido | Foto: Roger Silva

MIXTAPE: Falando em discos, também vi que você adora passar o tempo ouvindo vitrola haha. Que tal indicar uns bons discos pra gente?

JEAN: Colecionava discos quando era adolescente e esse feito fez com que eu abrisse minha cabeça para a música. Com o tempo fui deixando um pouco de lado, essa paixão que voltou com tudo em 2021. Gosto de voltar do trabalho e ficar deitado viajando no som das bolachas. Abaixo deixo uma lista dos discos que mais têm me chamado a atenção nos últimos tempos.


Canções praieiras - Dorival Caymmi

In the Court of the Crimson King - King Crimson

Adoniran Barbosa - (1974)

Angelus - Milton Nascimento

Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão - Marisa Monte

Assim Tocam os MEUS TAMBORES - Marcelo D2

Muito - Caetano Veloso


"A Ressaca do Mar Trincou Meus Ossos" está disponível no site da Loitxa Lab e também no Instagram @albuquerquejean_. Corre lá e conta pra gente o que achou :)



OutrosPots.png

Matérias Recentes

Listra.png