GATO NEGRO: “A arte é um ato político, revolucionário e deve resistir sempre”

Banda de rock alagoana é a sexta convidada da série “ARTE RESISTE” e bateu um papo com o Mixtape 90 sobre música, referências e o poder da arte como resistência.


Wilson&Paulo&André, a Gato Negro | Foto: Facebook/@gatonegromusic

“Degustei, gostei, quando dei fé viciei” é um dos trechos de “Chegue Cá”, último single da banda Gato Negro, que foi lançado como presente aos fãs no dia de Natal, depois de um 2020 tão louco e confuso para todos nós. Lá de Arapiraca, segunda maior cidade de Alagoas, vem o grupo que rima com destreza as palavras "cheiro" com "esmero" e "apego". É unindo o rock a composições inspiradas no melhor da MPB (Caetano, Gil, Roberto Carlos) que Paulo Franco (voz e guitarra), Wilson Silva (bateria) e André Tenório (baixo) trazem o melhor da música e do rock-poesia produzido nas terras de Djavan, a maior referência da banda.

Confesso que, mesmo conterrâneo dos caras, cheguei um pouco atrasado ao som deles, mas o suficiente para quando dar fé, estar super viciado. Minha primeira experiência ouvindo Gato Negro foi por indicação de uma amiga (valeu, Karina) com o single “Preciso Me Encontrar”. O que mais me chamou a atenção (além do indie rock brasileiríssimo e com sotaque) foi a sofisticação na forma de compor, o cuidado com as palavras tendo como inspiração a beleza da Língua Portuguesa: “Ela pediu um pouco mais de tempo / saiu por aí revendo ideias, desejos / Sambando até cair a esmo em braços alheios, avulsos”.

Com o primeiro álbum de estúdio, "Cio" (2015), e três singles lançados entre 2018 e 2020, a Gato Negro não parou desde o fatídico 30 de outubro de 2006, também aniversário da cidade de Arapiraca, em que surgiu o universo de uma das maiores representantes da música contemporânea alagoana. Dentre posts e mensagens trocadas com a banda nas redes sociais, pude perceber que boa parte do sucesso de um artista está no relacionamento com o público. Fato comprovado é que quem “Chega Cá” na Gato Negro sabe do cuidado, do esmero e do amor que os caras têm com os velhos e os novos fãs.

Foi numa tarde quente, em 1º de janeiro de 2021, que decidi enviar um e-mail para o vocalista Paulo Franco, que logo me respondeu que topava a entrevista. O resultado é esse papo massa que tivemos sobre música, referências culturais, novos planos e os ventos que trarão coisas boas. Vem com a gente no primeiro #ARTERESISTE do ano :)


MIXTAPE: “Chegue Cá” foi lançada no caótico ano de 2020, entregue aos fãs como presente de Natal e podemos dizer que chegou na hora certa. Como foi produzir nesse período?


PAULO FRANCO: "Chegue cá" foi gravada antes do isolamento, no final de 2019 já tínhamos tudo gravado. Só faltava a mixagem e masterização, que foram feitas no início de janeiro de 2020. A gente tinha a pretensão de lançar em março, mas aí o mundo virou de cabeça pra baixo e não vimos muito sentido em lançá-la naquele contexto de apreensão em que o mundo estava. O momento não tinha nada a ver com o que queríamos passar. No final do ano, conversei com os caras e resolvemos lançar como um presente, um sopro de esperança, desse "vento que trará coisas boas". Eles concordaram e assim foi feito. Fiz umas fotos do céu no quintal de casa, e elegemos a melhor pra capa do single, a foto entre o telhado e o muro carrega também a simbologia do isolamento social. Tudo se encaixou.



MIXTAPE: Agora vamos lá do início? Como surgiu a Gato Negro?


PAULO FRANCO: Eu e André já havíamos tocado juntos numa banda que se separou em 2005. Mantemos uma grande amizade e também a vontade de fazer um novo projeto, mais maduro, em que a gente pudesse tocar novas composições e também fazer versões de artistas que a gente curtia muito. Paralelo a isso, eu havia sido convidado por um produtor cultural na época, que fazia um tributo ao Legião Urbana todo ano em Arapiraca. Ele teve a ideia de juntar alguns músicos da cidade e formar uma banda que se chamou Via Láctea. E foi dentro do estúdio, na hora do ensaio, que eu conheci o Wilson, um batera que eu já admirava e respeitava muito. O tributo foi um sucesso, eu e Wilson adoramos tocar juntos e firmamos uma grande amizade. Depois disso cheguei pro André e falei que tinha encontrado o baterista certo pro nosso novo projeto. Quando foi um belo dia, 30 de Outubro, aniversário da cidade, no show do Duofel encontramos Wilson no meio da galera e fizemos o convite. A partir daí marcamos o primeiro ensaio, o som fluiu muito bem e assim nasceu a Gato Negro no final de 2006.

Em 2021, a Gato Negro completa 15 anos desde o convite na festa de aniversário de Arapiraca (AL) em 2006 | Foto: Facebook/@gatonegromusic

MIXTAPE: A Gato Negro é hoje um dos principais nomes do rock alagoano contemporâneo. Como enxerga o cenário atual para a região?


PAULO FRANCO: O cenário musical alagoano tá cada dia mais interessante, com muitos artistas bons surgindo, mulheres protagonizando cada dia mais, discos muito bem gravados, o pessoal se preocupando em fazer música com qualidade sonora e nas letras. Artistas que têm um bom desempenho de atividades nas redes sociais. Melhor do que os velhos, inclusive (e isso inclui a gente rsrs).


MIXTAPE: Tem algum artista alagoano dessa nova safra para indicar?


PAULO: Sim, tem vários. Tem o Ítalo França, que lançou um disco lindíssimo no final de 2020. Tem a Loreb, que é uma artista incrível e tem uma voz linda, a Flora também, a Larissa Gleis que é outra artista que adoramos e Os fugitivos, que é uma banda muito massa e tem um disco muito bacana!


MIXTAPE: Quais as maiores referências da Gato Negro?


PAULO FRANCO: Nossa maior referência é Djavan, depois vem Gil, Caetano, Roberto Carlos e uma pitada de Led Zeppelin que dá o tempero de peso que vem das baquetas de Wilson.


MIXTAPE: Sobre o Brasil atual... Vocês acham que a arte resiste?


PAULO FRANCO: Sempre, a arte sempre resiste. O artista historicamente vive com muito pouco e em condições adversas, não vai ser agora que vamos deixar a peteca cair. Pelo contrário, acho que quanto mais desafiador é o momento, mais inspiração o artista encontra pra criticar e descrever o que se passa, pois a arte tem um papel político muito importante. Fazer arte é um ato político e revolucionário e ela deve resistir sempre.


MIXTAPE: Quanto aos ventos que trazem coisas boas... O que podemos esperar da Gato Negro para 2021?


PAULO FRANCO: Vamos lançar o Disco até abril e, assim que estivermos todos vacinados e for possível aglomerar, vamos fazer um show pra matar a saudade dos palcos e dos amigos.


MIXTAPE: Ao final de cada entrevista, a gente pede que deixe uma mixtape para nosso público indicando obras que fazem ou fizeram parte da história de cada um. Quais são as da Gato Negro?


Paulo Franco: Alumbramento - Djavan (1980)

André: A Tábua de Esmeralda - Jorge Ben (1974)

Wilson: Roberto Carlos - Em Ritmo de Aventura (1967)


GATO NEGRO é uma banda de rock que acredita no poder transformador da ARTE.


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Spotify: Gato Negro


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