Amor, família & rock: o incrível mundo de Macca


Paul por Mary para o McCartney III (2020)

Foi da transformação do lockdown para rockdown que Paul McCartney mais uma vez nos surpreendeu e nos arrebatou com sua potência criativa em “McCartney III”, o mais recente álbum do ex-beatle da mente inquieta que chegou na última sexta-feira (18) para fechar a trilogia “McCartney”, iniciada há 50 anos.

Não existiu ano mais significativo para Paul soltar a terceira peça da série, já que o mundo enfrenta em 2020 uma pandemia em que muitos de nós nos vemos obrigados a ficar confinados em casa, mantendo o isolamento social enquanto o planeta se viu e ainda se vê em uma montanha russa de sentimentos, de tragédias, surtos e conflitos. A trilogia, iniciada em 1970 com o “McCartney I” (que marcou a carreira solo do Macca), consiste em um trabalho orgânico, todo feito em casa, com Sir Paul tomando as vezes de usina musical sendo o compositor, intérprete, multi-instrumentista e produtor de todas as faixas do disco.

Mary no "McCartney I" (1970) / Mary para o "McCartney III" (2020)

Confinado desde o começo da pandemia com a família de sua filha mais velha, a fotógrafa Mary McCartney (responsável pelas fotos de divulgação e do encarte do álbum), Paul fez do “McCartney III” outro evento de celebração à vida, à natureza e à família, tanto que a bebê que aparece enrolada na jaqueta do papai Beatle no encarte do “McCartney I” (1970) é ninguém menos que a própria Mary.

“A diferença do McCartney I para o McCartney III é que agora eu tenho o meu próprio estúdio em casa”, contou Paul em uma das entrevistas para a divulgação do álbum. E foi nesse estúdio que ele mais uma vez se recriou, dessa vez no período de lockdown, para estar em família e produzir como nunca. Afinal estamos falando do homem, da lenda, do ícone da música mundial que aos 78 anos não vive sem lançar novos álbuns e sem sair em turnê mundial a cada pelo menos 3 anos em shows que têm até 3 horas de duração. Paul é energia criativa, Paul não é o tipo de artista que vai ficar parado esperando a vida seguir e viver do passado, Paul é mente inquieta e mentes inquietas transcendem.


Podemos observar esse poder de Paul se transformar de acordo com o tempo na divulgação do novo álbum nas plataformas digitais como, por exemplo, o the enhaced do Spotify. Paul gravou stories para cada faixa contendo narrações dele sobre o processo de criação do álbum, deixando os fãs cada vez mais próximos dessa experiência orgânica.

Já o movimento #12DaysofPaul, organizado pela Amazon Music, consistiu em espalhar outdoors com partituras gigantes das faixas do álbum em muros de 12 cidades diferentes do mundo (incluindo o Rio de Janeiro). Na ação, Paul convidava músicos de toda parte do planeta para fazer versões das faixas (mesmo ainda não conhecendo as canções) e postarem nas redes sociais usando a hashtag acima. As melhores versões iam parar no site do ex-Beatle. No Brasil, a banda Melim fez uma versão para a faixa “Winter Bird/When Winter Comes” e foram até respostados pelo artista no Twitter.


Paul relatou que assim como o II (1980), o “McCartney III” surgiu por acidente já que em uma tarde de 2020, ele entrou em estúdio para gravar músicas que foram encomendadas para um curta-metragem e a partir dali não parou. O processo fluiu tão espontâneo que ele não reparou que de repente o “boom”: ele já tinha as 11 faixas de um novo álbum.


A abertura do disco já mostra o lado multi-instrumentista do Macca com mais de cinco minutos dele fazendo uma festa instrumental no estúdio soltando os versos “Você sente minha falta? Você me sente? Você confia em mim?” em “Long Tailed Winter Bird”.


“Você nunca teve medo de dias como esses / Mas agora tá sobrecarregado com suas ansiedades / Deixe-me ajudá-lo, deixe-me ser seu guia”. É dessa forma que Paul nos eleva em “Find My Way” enquanto ele se diverte no estúdio usando dois tipos de bateria, dois de baixo e fazendo inúmeras firulas com guitarras. No clipe, podemos sentir um pouco de como foram as gravação do homem que fez um disco inteiro sozinho em plena quarentena.

Como Paul não para mesmo em plena pandemia, foi a partir da leitura da biografia do cantor de Blues Lead Belly, que surgiu “Women and Wives”. A faixa começa sofisticada com Paul nos trazendo conselhos que ele mesmo também tenta seguir: “Escutem-me, mães e homens / Escutem-me, irmãos e irmãs / Ensine seus filhos e depois façam eles passarem para os outros.”


“Deep Deep Feeling” é a faixa mais experimental do álbum com mais de 8 minutos de duração oferecendo uma viagem daquelas em que Paul se referiu como “orquestra de guitarras”. Inicialmente, ele pensou em editar a faixa já que veio justamente dos momentos de sessões em estúdio em que mais divagava, mas graças a Deus decidiu deixá-la como surgiu. É uma faixa poderosa.

Outra faixa que surgiu das leituras de Paul na pandemia foi “The Kiss Of Venus”, que veio a partir de um livro sobre o movimento dos planetas. A parte melódica me fez lembrar de “Junk” lá do “McCartney I” com Paul usando aqui um instrumento que ele ama: harpsichord.

“Seize The Day” é o hino resiliente que todo mundo devia ouvir em 2020. “Quando os dias frios chegarem e os velhos hábitos desaparecerem / Não haverá mais sol e desejaremos ter mantido o dia / Aproveite o dia, aproveite o dia”. Aqui vai meu conselho: experimenta ouvir essa faixa seguida de "Here Comes The Sun" toda vez que tiver para baixo.

O álbum termina com “Winter Bird / When Winter Comes”, que chegou a ser gravada para uma reedição do “Flaming Pie” junto com “Calico Skies”. Paul trouxe a faixa para as sessões de confinamento e aqui temos a marca registrada da série “McCartney”: muito folk, lo-fi, o melhor da música indie feita em casa.

Foi em um dos anos mais difíceis para a humanidade, inclusive para o universo da música, que Paul McCartney fechou a trilogia que o consagrou com um dos maiores ícones solo da música mundial. A palavra de “McCartney III” chega num momento em que as pessoas mais precisam refletir de que tudo que necessitam hoje é espalhar os conceitos verdadeiros de amor, família e rock... Um viva ao incrível mundo de Macca.

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